sexta-feira, 26 de maio de 2017

A uma hora


Da Central do Brasil pode-se, em uma hora, conhecer as díspares realidades do Rio de Janeiro. Vê-se, indo pra Barra da Tijuca, um bairro em plena soberba natural onde serras, lagoas e praias enchem os olhos dos que ali transitam, com seus prédios e condomínios modernos inseridos adequadamente para manter a harmonia do local e aproveitar ao máximo o equilíbrio entre homem e a natureza, muita soberba e requinte posta à prova e passando com nota dez no final do teste. De certo modo, é como se estivéssemos num bairro de Miami com sotaque carioca. A avenida é das Américas, há estátua da liberdade e a cidade das artes, ambas quase intrusas se não fossem tão bem acolhidas, há churches, não igrejas, e um punhado de gente branca que se irrita com o BRT e com a cara preta do cara que não está atendendo atrás de algum balcão. A quadra de golfe toma bem mais do que dez quarteirões, as de tênis temos às centenas, as contas bancárias passam fácil dos milhões e os shopping centers nutrem suas crianças que já nascem falando três línguas oficiais. É na Barra que estão os homens de negócio e as mulheres recatadas e do lar, elas têm muita coisa pra decidir, muita compra pra fazer, muito cartão de crédito pra gastar e poucos filhos pra criar, mas mesmo assim terceirizam o cuidado materno a cargo de empregadas domésticas hiper-bem-domesticadas com seus salários minguados e sua mente apinhada de dizeres bíblicos, sim, aqueles cujo personagem principal seu chefe menospreza mas que os usa de forma eficiente para manter sua funcionária extremamente fiel, dê-me a sua outra face, ele nos explica, logo ela que não tem outra coisa a argumentar com a pífia qualidade de informação que eu passo pra ela, e sorri bonito pra nós, logo ela que agora tem papelão pra quem dormia no asfalto, então, dou-lhe o asfalto, oras, já o papelão ela compra de mim, logo ela, e aqui realmente gargalha, que até criei uma personagem na novela das oito pra ela, logo ela que será amiga da mocinha, a que tem tempo de malhar, a que come fibras e toma vitaminas, a que tem um coração mole mas sonega impostos, logo ela que não teve muito estudo e mora tão longe, logo ela, a que tem maus vizinhos também da sua cor, e como são cruéis ao portar armas quando fecham-lhes as bocas, e como são ordinários em trocar voto por um prato de feijão os pais desses vizinhos, logo ela que tem que servir feijoada pros patrões logo mais, logo elas, empregada e patroa com seus inúmeros likes pela fotografia nova nos seus respectivos perfis.
Porém, se, ao contrário, formos pr'outro lado, teremos à vista a escassez de condições mínimas para se viver com dignidade e competir de igual pra igual, desde os serviços públicos básicos até os privados que vão ficando cada vez mais escassos. Já no trem, vemos todo tipo de homem e mulher a vender o que for possível e viável, vemos também o pastor tentando abocanhar mais uma ovelha para o seu rebanho, sim, aquele que lhe serve de conforto, psicólogo, interação social, ajuda, diversão num ambiente que cada vez menos tempo se tem, e tempo é dinheiro porque o dinheiro compra o tempo, e a barra vai perdendo a importância das letras maiúsculas e ganhando mais um sílaba pra virar a barraca que é, essa moradia que é o intermediário entre o céu aberto e o corpo fechado, sinta-se agradecido, é o que ele sente quando olha pro que mora na rua, sinta-se um felizardo, é o que ele sente quando vê na tv mais um negro sendo morto por portar algo que parecia uma arma, assassinado por outros negros que trabalham a favor do estado que lhes tira degraus como se lhes retirassem cotas, sinta-se agraciado por ter seu emprego com carteira assinada com a sua hora-extra que nunca mais será paga, olha como sou benevolente, eu fui contra quando o impediram de se aposentar, sinta-se culpado por ter largado os estudos pra ajudar a mãe a pôr comida na mesa vendendo picolé na praia ou camisinhas no sinal, é por isso que merece o salário mínimo que recebe, muito obrigado, senhor, diz o ambulante quando vende algo, por tudo mesmo, inclusive pela palavra que me oferece de conforto, mas, diferente da cachaça que é solução pra muitos e que me oferece de conselho e consolo, cachaça essa que danifica tanto o fígado quanto o cérebro, tenho eu, e convicto ele diz agora mais alto como se com isso forçasse o cérebro a acreditar no que ouvia, meu pastor a me guiar para o caminho da salvação, nem que seja na outra vida, e imediatamente volta sua atenção pro microfone a oferecer mais chocolates e chicletes e meias e fones de ouvido a um possível comprador que por sua vez não se preocupa em questionar a autenticidade do produto ofertado. Assim que o trem avança baixada adentro a paisagem vai gradualmente alterando, parece que os morros do centro vão se dissolvendo e deixam no asfalto espalhadas as casas desembolsadas e os barracos de teto de zinco pela estrada junto com uma justiça que fica cada vez mais preguiçosa ao ponto de parar de usar as pernas já um tanto cambaleantes e passa a andar estranhamente com as mãos, e se nelas armas tiver melhor pois é certo o negócio e o lucro e o que era injusto vira justo porque tarde chega e cedo falha, queira aguardar atrás das grades, cara, ainda não é a hora, e vê se cala a boca porque aqui ninguém vai te ouvir não, sacou, quem sabe você sai em menos de um ano, e assim num tom do salve-se quem puder vai deixando encrustada como marca de açoite a leveza de uma alma que foi se tornando bastante pesada com o passar dos anos, quase perdendo pro cansaço, mas, espera um pouco, vai lá pegar o trem, cara, vai, você consegue, não se esqueça que é um abençoado, lembre-se sempre disso, o menos é mais, levanta, vai, depois pega o ônibus, o metrô e o BRT e venha gerenciar o meu negócio, venha estudar na minha faculdade, venha aprender no meu curso de inglês, venha voar no nosso aeroporto, venha dar um rolezinho pelo nosso mercadão, venha  invadir a nossa paradisíaca praia, venha votar no meu culto candidato, tenho certeza que não irá se arrepender , venha podar as plantas do meu jardim, venha servir no meu restaurante caro, venha manipular na minha farmácia, venha limpar a minha rua, venha vender os meus imóveis, venha lustrar os meus caros carros, venha cuidar dos meus pacientes, venha engraxar os meus sapatos, venha empacotar no meu supermercado, venha convencer um astrônomo a usar um telescópio ao contrário.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Prazer em conhecê-lo

O silêncio se fez presente e preencheu tudo, cada canto do quarto e da cama deixando-lhes inclusive com uma lembrança marcada embaixo do braço e no pescoço, e sufocou o barulho do ventilador que não era de teto e da televisão ligada numa série que parecia boa fazendo com que seus sussurros ficassem limitados a um ínfimo olhar que de tão profundo perscrutava os labirintos que compunham suas veias, tão próximos que um arfava o ar que jorrava do outro, olho no olho, pelo no pelo, pele na pele, lábio no lábio, e levou consigo não só a música como os quadros que impediam a parede de estar nua assim como num clique apagou a luz de um abajur que ali não existia e aprisionou o trovão de algum raio que naquele momento caía.
Uma vez que se fez presente em tudo que não era orgânico, o silêncio absoluto acordou sobretudo o monstro que dormia somente se fizessem barulho, tanto que saciadas sua fome e sede após levantar faminto era chegada a hora de cavar pra conhecer além do que a superfície exibia, pra lapidar as pedras brutas e preciosas que encontraria e beber dos lençóis d'água que formarão os rios que desaguarão em mares ora navegáveis ora bravios que se banharia. Mas a resposta pra pergunta não feita já estava dada, pois a terra é fértil quando é semeada assim como os filmes são compostos por sobreposição de fotografias; portanto, caminhe para formar a estrada e se precisar repouse, mas não se esqueça que é o ponto de vista que faz a partida ser início e o fim virar chegada, é ele quem transforma o garrancho numa linda trovada e converte a dor no mais puro prazer da alma reconfortada, porque é da mistura da vontade em descobrir tudo que há no outro com o que ele tem pra oferecer que faz a pessoa enxergar a beleza que há no caminho que compõe passo a passo de cada caminhada. Prazer em conhecê-lo. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

1, 2, 3.

1 dente
2 dentes
3 dentes
Nem tente
Vc está doente
Esvazie sua alma
Entorpeça sua mente
É titânio virando ouro
É dinheiro substituindo gente
Implante, aguente
Tempestade em cOpO d'água
Só acaba se sorridente
Sem riso vou sorrindo
Sem grana vou seguindo
Sem graça e sem dente
1 dente
2 dentes
3 dentes
Nem tente
Esvazie sua alma
Entorpeça sua mente

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Festa de despedida: A música que não estava tocando


pam, panananam 
pam, panananam
pam, pananam, panananam
pananam
(2x) 
Tem na esquina
Tem no altar
Tem pr'onde tudo se vê

Na sua casa
O seu telhado
Tem vidro veem você

Não adianta
Tanta palavra
Quero ver acontecer

Pode dar certo
Ou dar errado
Basta que queira fazer

E crê
Crê em você
Que vai 
Você vai ter
Que andar 
Pr'algum lugar
Se do lugar 
Quer se mover

E crê
Crê em você
Que vai 
Você vai ter
Que andar 
Pr'algum lugar
Se do lugar 
Quer se mover
  
pam, panananam 
pam, panananam
pam, pananam, panananam

pananam
(2x)

Nada importa 
Da vida alheia
Ligue-se só em você

Perde o tempo
Perdendo as horas
E é você a perder

Quero saber
O que vai ser
Da sua vida
Quero saber
Vou procurar
Pode esconder
Mas vou achar
Vou colher

A liberdade
Vontade própria
Auto-estima pra quê

Ganho meu tempo
Perdendo as horas
Mas só sou eu a perder

Tem na esquina
Tem no altar
Tem pr'onde tudo se vê

Na sua casa
O seu telhado
Tem vidro veem você

tam tanranranram
tam tanranranram
tam tanranranram, tanranranram, tanranranram
(2x)


E crê
Crê em você
Que vai 
Você vai ter
Que andar 
Pr'algum lugar
Se do lugar 
Quer se mover 
(7x)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Festa de despedida: É verdade

É verdade mesmo que de perto qualquer filho da puta vira gente, que quando a ajuda é demais o santo desconfia logo assim como a criança mimada fica perdida se o tempo tentar ser compensado por bens materiais; é verdade também que pro veneno virar remédio basta dosar-lhe o efeito e que o desejo é o único combustível que antecede tanto a vingança quanto o beijo, e o humanismo, que anda meio estrábico nesses tempos de egocentrismo exacerbado, tem se alimentado com a mágoa alheia que esse monte de verdade posta em prática gera, mas é assim mesmo a vida, meus caros, uma luta constante entre vontade e ação, entre prazer e redenção, entre cérebro e coração. É verdade sim que não lucrarei nada em trancafiá-los aqui, amarrados sem saber aonde estão, nem reconhecem minha voz, né, tenho certeza disso, mas vou refrescar a memória de vocês, acredito que lembrarão.