quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Festa de despedida: É verdade

É verdade mesmo que de perto qualquer filho da puta vira gente, que quando a ajuda é demais o santo desconfia logo assim como a criança mimada fica perdida se o tempo tentar ser compensado por bens materiais; é verdade também que pro veneno virar remédio basta dosar-lhe o efeito e que o desejo é o único combustível que antecede tanto a vingança quanto o beijo, e o humanismo, que anda meio estrábico nesses tempos de egocentrismo exacerbado, tem se alimentado com a mágoa alheia que esse monte de verdade posta em prática gera, mas é assim mesmo a vida, meus caros, uma luta constante entre vontade e ação, entre prazer e redenção, entre cérebro e coração. É verdade sim que não lucrarei nada em trancafiá-los aqui, amarrados sem saber aonde estão, nem reconhecem minha voz, né, tenho certeza disso, mas vou refrescar a memória de vocês, acredito que lembrarão.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Festa de despedida: Já posso postar.


Naquela noite eu sonhei que fumava um cigarro ao aguardá-lo virar a esquina de mãos dadas com seu namorado, era tarde e acredito que ambos tinham a absoluta certeza que não estavam sendo vistos, senão não fariam isso, sempre foram discretos ao extremo. Sei que diziam antes do beijo, era um sonho e minha audição conseguia alcançá-los já bem próximos um do outro, vi sua mão tocar o queixo barbudo dele alternando sofregamente com a cintura, a respiração afoita denunciava-os, e nervosos com seus quatro olhos imitando suas duas bocas ocupadas que encobriam uma a outra, senti que transariam ali mesmo, escondidos naquela penumbra, até que começaram a se despir e eu liguei a câmera do celular. Do alto da janela do meu prédio eu os observava, e a cada lambida, a cada balançar da língua dentro de suas bocas, e orelhas, e a cada mordida na lateral do pescoço eu sentia a minha boca salivar junto e minha pele arrepiar deixando-me tão excitado quanto. Aqueles dois homens ali, falei no vídeo que fazia, há dois homens debaixo daquela árvore, a luz do poste está queimada e não dá pra ver direito, expliquei eu, mas eu os vi se beijando agora pouco e acredito que eles vão transar, fiz uma pausa e arrebatei concluindo, e isso é uma pouca vergonha. Claro que eu já sabia quem eles eram, mas não dava pra garantir nada ainda, estava muito escuro e era bem tarde, portanto eu não disse nomes durante a filmagem, só esperei até o final da pegação quando um gozou na boca do que estava ajoelhado depois daquele tê-lo feito enquanto era penetrado; com tudo acabado acredito que nem se beijaram, como fariam normais amantes, já que saíram muito rápido de lá e partiram rumo a suas casas jogando na lixeira próxima algo que devia ser a camisinha, como se fossem apenas dois conhecidos que sem querer se encontravam na madrugada da vida, e despediram-se formalmente, mas eu sabia que não era só isso, sabia que voltariam em breve a se encontrar novamente, e eu estaria lá, e a frequência ia ficar cada vez maior ao ponto de irem morar juntos sem se preocuparem a quem estivessem magoando, malditos seres egoístas, por isso que fiz esse vídeo, pra que todos saibam desde já até onde isso vai parar, porque quem machuca primeiro se cura logo, eu eu não quero deixar isso cozinhar em banho-maria; opa, espera um pouco, acho que agora dá ver bem a cara deles; olha lá, dá sim, ainda bem que a minha câmera é potente; vou aproximar ao máximo pra que não restem dúvidas; pronto, pronto, já posso postar. 
O engraçado desse sonho louco é que, ao acordar, fui olhar no meu celular e o vídeo estava lá, exatamente da mesma forma que sonhei estar filmando, mas não tinha o áudio, ninguém dizia nada, eram ouvidos esparsos e sufocados gemidos somente. Outra coisa engraçada era o cigarro que o tempo todo eu fumava já que eu não fumo há séculos. Pode ser que tenha alguma coisa a ver com os medicamentos que na bebida dos dois eu misturei, e que eu também bebi, acho que é isso, é o mais provável.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Festa de despedida: pra quê?

Por que as pessoas se sentem superiores às outras quando tOdO mundo sabe que sOmOs iguais, pele, osso, gordura, água, proteína e alma, por que continuam reafirmando isso, mas já sei, só reafirma quem titubeia, nunca vi um rei dizendo talvez isso, talvez aquilo, não pelo menos em voz alta, olha moço, naquela encruzilhada vire à esquerda, não, não, é a direita, não, vá em frente, mas pra onde o senhor está me mandando, moço, aonde vai dar essa estrada, sei lá, mas qualquer lugar presta, você não disse pra onde quer ir mesmo, e ir é melhor do que ficar, tem certeza disso, e se na minha frente tiver um precipício, vai me jogar pro buraco, não, vou te ensinar a voar. Pra um diálogo começar há uma condição: mínimo de dois indivíduos. Neste caso sou eu apenas conversando comigo enquanto bolo um plano pra tentar afastar esses dois que não têm noção do que os espera.
Ser justo é questão de pOntO de vista, mas e se eu for cego, quais seriam as minhas verdadeiras intenções, será que o ladrão não rouba pra se vingar da sorte que sempre lhe virou as costas, será que a falta de carácter não é na verdade o seu esvaziamento, será que não somos nós que perdemos quando viramos a cara na esquina pra miséria que revira o lixo sem que nos choque mais, sem um mísero verso inverso a lhe expor e sangrar.
Oi, tudo bem, a senhora podia me mostrar onde ficam seus medicamentos, preciso tomar nota pra fazer a reconciliação medicamentosa, sim, onde os guarda, no quarto ou no banheiro. Ok, ok, vamos lá então, quero vê-los de perto. Pra quê, já, já lhe explico melhor.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Festa de despedida: Enquanto pode


Quando eles começaram a dançar ninguém reparava, ninguém os via, mas eu sim, eu estava sempre lá observando, fazia-me de invisível sempre que possível, discreto ao máximo, e , por isso, quase sempre conseguindo me misturar sem ser visto. Se alguém perguntasse, você viu fulano, que fulano, reperguntariam, e a outra pessoa não se lembraria do nome, poxa, cara, desculpa, mas não me lembro, como é mesmo que ele é, retrucaria com a certeza instantânea que os gestos seriam muito mais eficientes, e o outro apontaria para a cintura dizendo que é um garotinho tímido ele, bem magro e de cabelo bem baixinho, à máquina quase zero, mas acho que cê não viu não né, senão já teria dito, na maioria das vezes é o que dizem, eu acho que até vi, moça, mas só não lembro onde. Olha lá, agora eles vão se beijar, começou a música que os dois gostam, e essa é a parte que eu menos gosto. Vou fazer algo pra isso não acontecer; festejem enquanto podem.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Festa de despedida


Aquela mulher sentada na cadeira de praia sob a sombra de um grande guarda-sol de plástico branco na beira da piscina é Lara, minha mãe, e ela tem em suas mãos um livro que quase termina de ler, vê-se pelo número de páginas que divide aberto enquanto absorta se entrega a uma história onde mulheres eram taxadas como bruxas, um castelo era erguido e sete-sóis e sete-luas tornaram-se amantes e melhores amigos de um padre que só queria conhecimento para poder vaiajar na companhia da passarola, cujo desejo que aos três impulsionava e nutria era combustível, e se perderam por aí.
Uma bola resvala na água próximo ao acento, e sua neta Bia encosta-lhe no pé esquerdo cruzado sobre o joelho apoiando-se ao mesmo tempo em que molha com sua mão úmida a perna da avó e pede desculpa, vovó, mas eu não consegui agarrar com força, e nisso faz um pausa com o biquinho de lábios rosados assoprando junto com o dedo que apontava pro primo atrás de si, e aí eu não consegui segurar quando o Léo jogou e me escapuliu, vó, desculpa, tá, foi sem querer. A avó, claro, sorri e pega a neta no colo após fechar o livro na página 267 e guardá-lo dentro da bolsa. 
Lá na churrasqueira está papai, ele adora fazer churrasco, e fica muito bom. O freezer também fica por lá, mas também a pia, próximo aos banheiros, e os dois chuveirões de frente pra rua que estão ligados molhando a Val e o Jota, ambos cheios de areia da praia e famintos de fome.
Lara diz que a comida já está pronta, que é só eles se secarem que já podem almoçar, que tem carne saindo agora, que tem pão de alho e de queijo; nisso, os meninos pegam cada um uma asa de frango e vão correndo em direção à mesa pra limparem os dedos nos guardanapos e pegarem pratos e talheres limpos, mas ela diz isso ao mesmo tempo em que levanta e pega também um copo pra matar a sede que havia se apoderado dela, e pensa alto afirmando que seria muito bom agora tomar aquela água de côco bem gelada que está lá no congelador, vocês vão querer também, meninos, pergunta e ouve em uníssono um sim alto e redundante como resposta, claro né mãe, água do mar dá sede, oras. Neste momento a campainha toca. 
Seus amigos começaram a chegar, Renatinho, diz Lara, e ele instantaneamente levanta largando finalmente um pouco o som que escutava deitado na rede da varanda desde cedo e vai lá recepcionar o pessoal. A festa de despedida vai começar. Eu me aproximo do celular abandonado, pego num dos fones que ficou pendente balançando ainda devido à partida brusca do meu irmão e o ponho em meu ouvido pra tentar entender o que tanto o entretinha.